Bloqueio de escritor: como os escritores desatam os nós da escrita

Quem escreve conhece bem os nós: as ideias que não se organizam, a página que não começa, o meio que não anda, a voz que diz que nada presta. O nome que se popularizou para isso é bloqueio de escritor, e parece que só acontece com a gente. Não é verdade. Os escritores que a gente admira passaram por tudo isso, e cada um inventou seu jeito de seguir em frente. E você, qual nó está desatando agora?

Ideias soltas

Gravura vitoriana de um baú antigo, ilustrando onde guardar as ideias soltas

Guimarães Rosa acompanhou boiadas a cavalo com “um caderninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros”. Moacyr Scliar escrevia à mão, “em pedaços de papel dos mais variados tipos”, por livre associação, e só depois juntava os pedaços e tentava dar a eles uma coerência. Ideia solta não é defeito: é matéria-prima. Onde você guarda as suas?

Começar

Gravura vitoriana de uma caneta-tinteiro, ilustrando o começo da escrita

Julia Cameron, em O caminho do artista, propõe as páginas matinais: três páginas escritas à mão logo ao acordar, em livre associação, sem reler. Pode sair lista de compras, queixa, bobagem. A mão começa a andar antes que o crítico interno acorde.

Mario Quintana dizia que não adianta esperar a inspiração: “não é só ficar esperando que o santo baixe, é preciso puxar o santo pelos pés”. E Luis Fernando Verissimo, com toda a leveza das crônicas dele, confessava: “É comum começar uma crônica sem a menor ideia do que dizer. Você descobre o que pensa, escrevendo.”

O meio que não anda

Gravura vitoriana de uma lâmpada antiga, ilustrando a luz no meio escuro da história

Graham Greene não se assustava com o meio escuro: “Vejo o começo e o fim, mas no meio ainda há muita sombra. Felizmente que assim é, caso contrário o livro estaria já como que escrito.” Aldous Huxley, quando empacava, ia ler, e não era para copiar ideias, “mas simplesmente para recomeçar de novo”. E Roberto Drummond, por superstição, escrevia sempre o último capítulo primeiro. Depois disso, ficava livre para escrever o resto.

“Nunca acho que fica bom”

Gravura vitoriana de um olho, ilustrando o olhar crítico de quem escreve

Octavio Paz admitia: “Corrijo muito, sim. Estava e estou possuído por um sentimento de insegurança.” Lygia Fagundes Telles fazia do tempo um aliado: escrevia de uma vez, “com muita paixão”, e depois deixava o texto “dormir”, amadurecer “como um fruto amadurece”, antes de voltar para cortar e trocar palavras.

Constância

Gravura vitoriana de pontas de caneta, ilustrando a prática diária da escrita

Alberto Moravia decidiu aos 16 anos que escreveria todos os dias, três horas a cada manhã. Com o tempo, diz ele, escrever virou parte do seu “ritmo biológico”. Isabel Allende acende uma vela quando começa a escrever. A vela dura seis ou sete horas: “Acabou a vela, acabou o trabalho.” Qual seria o seu ritual?

Quando o nó é o que dói

Gravura vitoriana de um coração anatômico, ilustrando a escrita que nasce da dor

Às vezes, o bloqueio de escritor não é técnico. Drummond dizia que ninguém sente necessidade de escrever quando está feliz da vida: “Você sente necessidade de expressão no momento em que falhou alguma coisa na sua vida.” Rachel de Queiroz contou, rindo, que um amigo quis levá-la para a psicanálise prometendo livrá-la de todos os seus grilos. A resposta dela: “Se você me livrar dos meus grilos, como é que escrevo?” E Vargas Llosa resumiu: “Não fiz psicanálise, a literatura é o meu sofá.”

O bloqueio de escritor não tem fórmula

Nenhum deles tinha fórmula. Tinham prática, paciência e leitores. A Oficina de Escrita Criativa do Terapia da Palavra tem um pouco de tudo isso, e a próxima turma começa em novembro.

Maria Rachel, do Terapia da Palavra

Três exercícios para desatar os nós

P.S. Três exercícios inspirados nesses escritores. Escolha um.

  1. O caderninho de Rosa: durante uma semana, anote tudo o que ouvir de bom: uma frase no ônibus, um nome, um barulho. No sétimo dia, escolha três anotações e escreva um parágrafo que junte as três.
  2. O último capítulo primeiro: pense numa história que você quer contar e escreva só o final dela. Depois, pergunte-se o que precisa acontecer para chegar até ali.
  3. Deixar dormir: escreva um texto curto de uma vez, sem parar. Guarde por três dias. Quando voltar, faça como Lygia: tire uma palavra aqui, corte outra ali, troque uma terceira.
Quer tirar alguma dúvida?
WhatsApp