De 22 a 26 de julho, Paraty volta a ser a capital da literatura brasileira. A 24ª Flip — Festa Literária Internacional de Paraty — homenageia neste ano a poeta Orides Fontela (1940-1998), voz de rigor raro na nossa poesia. E, para quem prefere acompanhar de longe, como eu já contei por aqui: tudo será transmitido ao vivo, de graça.
Orides Fontela, a homenageada
Nascida em São João da Boa Vista, autora de Transposição, Helianto, Alba (Prêmio Jabuti) e Teia, Orides viveu na precariedade e escreveu com uma precisão que ainda nos ensina. A curadoria de Rita Palmeira fez de sua obra o eixo da festa: as 21 mesas do programa principal levam versos dela no título, e a Editora Hedra relança os cinco livros publicados em vida. Poesia como guia numa edição que fala de casa, desenraizamento e instabilidade — a nossa e a do mundo.
Os destaques da programação da Flip 2026
Impossível resumir 21 mesas sem injustiça, mas aqui vão minhas apostas, dia a dia:
- Quarta, 22/7, 19h30 — abertura: “entra furtivamente a luz”, tributo a Orides com o crítico Augusto Massi, amigo e editor da poeta, e leitura performática de Marília Garcia.
- Quinta, 23/7: o ucraniano Andrei Kurkov e a canadense Maria Reva discutem como narrar uma guerra (12h); à noite, Kamel Daoud, vencedor do Goncourt 2024, encontra a luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida para falar de luto, esquecimento e dever de memória (19h).
- Sexta, 24/7: a alemã Carmen Stephan, autora de um romance sobre a malária narrado pelo mosquito, conversa com Drauzio Varella sobre escrita, medicina e morte (10h); a ministra Cármen Lúcia fala de democracia às vésperas da eleição (13h30); e a mesa “como revelar-te se me revelas?”, mediada pela escritora e psicanalista Natalia Timerman, reúne Flávia Péret e a argentina Julieta Correa em narrativas sobre mães, avós e demência (15h).
- Sábado, 25/7: o crítico João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista Paulo Schiller debatem o autoritarismo (12h); Ana Paula Tavares, Prêmio Camões 2025, fala de poesia e emancipação (15h); Hisham Matar e Milton Hatoum conversam sobre famílias marcadas por ditaduras (17h); e, às 19h, a grande estrela desta edição: Zadie Smith, entrevistada por Juliana Borges.
- Domingo, 26/7: a catalã Eva Baltasar e a amazonense Susy Freitas encerram a festa esgarçando os estereótipos do feminino (15h30).
Além do Auditório da Matriz
A programação paralela cresceu: são 44 casas parceiras em volta da Praça da Matriz, com atividades gratuitas. A Casa Sesc recebe, pela primeira vez na Flip, a filósofa e ativista americana Angela Davis. Há ainda o Leitura na Praça, com leitura coletiva e troca de exemplares no gramado da Igreja Santa Rita, e os espaços Flipinha, FlipZona e FlipEduca, dedicados à formação de leitores.
O Afrouxa-Membros: um lançamento que me diz respeito
Preciso confessar: nesta edição, a Flip me interessa por um motivo a mais. Ana Clara Nogueira, filha de uma amiga muito querida, lança seu romance de estreia, O Afrouxa-Membros, publicado pela Editora Patuá. O título vem de Safo: no fragmento 130, Eros é o “afrouxa-membros”, aquele que, doce-amargo, nos desarma. E é disso que o livro trata — do desejo em todos os seus estados, numa linguagem exuberante e transgressora. No dia 23 de julho, a autora participa de uma roda de conversa na Casa Gueto, espaço das editoras independentes, seguida de sessão de autógrafos em Paraty. O lançamento oficial será em São Paulo, em agosto. Até lá, o livro já está em pré-venda no site da Patuá.
Como assistir à Flip 2026 online
Todas as mesas do programa principal serão transmitidas ao vivo e gratuitamente pelo canal oficial da Flip no YouTube, pelo site flip.org.br e pelo canal Arte1 — com Libras, audiodescrição e tradução simultânea. Para quem for a Paraty, os ingressos são vendidos no site oficial (primeiro lote a R$ 50, com meia a R$ 25). Quem acompanha este blog sabe que a Flip é uma fonte constante de inspiração para a nossa oficina — o embrião dela nasceu numa edição de 2004, quando conheci Rosa Montero. Se você escreve, ou quer escrever, reserve algumas mesas da semana: ouvir bons autores pensando em voz alta é uma aula de escrita.

