Terapia da Dignidade: o que o caso de Lito Sousa me fez lembrar sobre escrever para quem fica

Vi hoje, num vídeo no YouTube, a Dra. Ana Claudia Quintana Arantes conversando com Mila Seidl. A Dra. Ana Claudia tem vasta experiência em cuidados paliativos. Elas falavam sobre o diagnóstico do marido de Mila, o Lito Sousa, do Aviões e Músicas: doença de Creutzfeldt-Jakob, que ainda não tem cura. Foi ali, quando a própria Dra. Ana Claudia ofereceu a Terapia da Dignidade a ele, que a resposta da Mila ficou em aberto. Voltei então a pensar nessa técnica, que conheço há algum tempo. Pouca gente a conhece, e acho que devia.

O que é a Terapia da Dignidade

Há alguns anos, o psiquiatra canadense Harvey Chochinov se perguntou por que tantos pacientes perto do fim da vida sentiam ter perdido a dignidade. Isso acontecia mesmo quando os médicos cuidavam bem da dor. A resposta quase nunca era sobre o corpo — era sobre ser visto, sobre saber que algo de quem se foi continuaria existindo em alguém. Daí nasceu a Terapia da Dignidade: uma conversa guiada em que a pessoa diz o que quer que seja lembrado dela. Essa conversa vira um documento que fica.

Na prática, o processo é simples e dura poucas sessões. Um profissional treinado grava uma conversa guiada por um roteiro de perguntas: que partes da sua história você mais lembra ou considera mais importantes? Quando você se sentiu mais vivo? O que você gostaria que as pessoas que você ama soubessem sobre você — ou lembrassem? Quais foram os papéis mais importantes que você viveu, e do que mais se orgulha? Há algo que você ainda precisa dizer, ou dizer mais uma vez? Que conselhos ou palavras você deixaria para quem fica? Depois, o profissional transcreve a conversa, revisa com a pessoa, e a entrega à família como documento permanente — o legado, em forma de texto.

Por que isso nos diz respeito a todos nós

Mas — e é isso que mais me toca — salvo esses casos mais urgentes, somos todos, de um jeito ou de outro, terminais. Isso pesa mais sobre quem já tem uma idade mais avançada. E ainda assim, raramente perguntamos a essas pessoas o que gostariam que a gente lembrasse.

Eu, por exemplo, não sei o que eu daria por um vídeo do meu avô com palavras só para mim, para um dia triste. Ou uma carta para abrir quando eu fizesse, por exemplo, 50 anos.

Nem todos terão acesso à terapia formal. Mas o próprio Chochinov diz que as palavras não são o único caminho. Um entalhe em madeira, uma pintura, um vídeo servem igual, desde que sejam verdadeiros. Ainda assim, deixa eu defender um pouco a escrita: dá para lapidá-la até dizer exatamente o que se quer dizer. Ela não exige talento nem equipamento, e atravessa quem ainda nem nasceu. Palavra também é herança.

Um convite: comece a escrever

Por isso, um convite sem pressa: comece pequeno, pelo que você já viveu. Peça a receita de um prato querido e escreva do lado a lembrança que ela evoca. E vá além do que já aconteceu — peça também um recado para o futuro, uma carta para depois ou para quem ainda nem nasceu. Memória olha para trás; recado olha para frente. Escreva o que ouvir, ou escreva você mesma. Não precisa ser bonito — precisa existir.

Morrer é inevitável. Morrer mal, não deveria ser.

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