“Antes de tomar a decisão que iria mudar a sua existência de diversas maneiras, antes, pois, de tornar-se estúpido, Antoine tentou outros caminhos, outras soluções para resolver a sua dificuldade em participar da vida.
Eis a sua primeira tentativa, que se poderia julgar desastrada, mas que foi plena de sincera esperança. Antoine jamais tocara uma gota de álcool. Mesmo quando se feria ligeiramente, quando se arranhava, recusava-se, como bom abstêmio, a desinfetar-se com álcool setenta graus, preferindo a Betadina ou o Mercurocromo.
Em casa não tinha vinho nem aperitivos. Mais tarde, desprezou a utilização de artifícios fermentados ou destilados para estimular a falta de imaginação ou para fazer desaparecer os efeitos de uma depressão. Observando como o pensamento das pessoas embriagadas era vago e distante de qualquer preocupação com respeito à realidade, como suas frases se satisfaziam com a incoerência e, como coroando tudo, tinham a ilusão de declamar soberbas verdades, Antoine decidiu aderir a esta promissora filosofia. A embriaguez parecia-lhe o meio de suprimir toda e qualquer veleidade reflexiva da sua inteligência. Embriagado, ele não teria necessidade de pensar, ele já não o poderia: seria um retórico de aproximações líricas, eloqüente e volúvel. A inteligência no seio da embriaguez já não teria sentido; com suas amarras afrouxadas, ela poderia fazer naufragar ou ser devorada por tubarões sem que disso se desse conta. Risos sem motivo, exclamações absurdas, em estado de ebriedade ele amaria todo o mundo, seria desinibido. Dançaria, vira— voltaria! Oh, certamente, ele não esquecia a parte sombria do álcool: as tonturas, os vômitos, a cirrose à espreita. E a dependência. Ele contava com sua transformação em alcoólatra. Isso traz plenitude. O álcool ocupa totalmente o pensamento e dá fim ao desespero: cura. Ele freqüentaria então as reuniões dos Alcoólatras Anônimos, contaria a sua trajetória, seria apoiado e compreendido por seres da sua espécie, os quais aplaudiriam sua coragem e sua vontade de recuperar-se. Ele seria alcoólatra, ou seja, alguém que tem uma doença socialmente reconhecida. Os alcoólatras são compreendidos, são cuidados, têm uma consideração médica, humana. Ao passo que ninguém pensa em compadecer-se das pessoas inteligentes:
“Ele observa os comportamentos humanos e isso deve fazer dele uma pessoa muito infeliz”, “Minha sobrinha é inteligente, mas é uma pessoa muito boa. Ela quer sair disso”, “Por um momento, tive medo de que você se tornasse inteligente.” Eis o gênero de reflexões bondosas, cheias de compaixão, a que ele teria tido direito se o mundo fosse justo. Mas não, a inteligência é um duplo mal: ela faz sofrer, e ninguém se dá ao trabalho de considerá-la uma doença.
Ser alcoólatra seria, em comparação, uma ascensão social. Ele padeceria de males visíveis, com uma causa conhecida e com tratamentos previstos; não existe desintoxicação para a inteligência. Enquanto, por um lado, o pensamento conduz a determinada exclusão, pela distância do observador com respeito ao mundo observado, ser alcoólatra poderia ser um meio de encontrar um lugar nesse mesmo mundo. E estar perfeitamente integrado na sociedade, quando isso não acontece naturalmente, é o desejo de qualquer alcoólatra. Graças ao álcool, ele não sofreria mais timidez alguma com respeito às relações humanas, e nelas poderia tranqüilamente imiscuir-se.”
(Martin Page in Como me tornei estúpido, 4ª reimpressão, Ed. Rocco, 2005.)




